A formação de Redes de Parcerias e a Economia Solidária

Autor: Giórgio de Jesus da Paixão*

Pode-se destacar a importância da criação de redes de parcerias onde há um trabalho bastante abrangente, com destaque para Granovetter (1985), a partir do campo teórico da sociologia econômica, para o qual ele destaca que as ações econômicas são determinadas pelo modo como se dão as relações sociais entre os agentes aí envolvidos. Essas relações sociais e econômicas estão “imersas” (“embeddedness”) em redes de relações sociais, fundamentadas no poder estabelecido pela confiança recíproca, tanto para o desenvolvimento das interações de mercado quanto para o estabelecimento das interações sociais mais abrangentes. Essa “imersão” reforça o papel das relações sociais na geração da confiança e no desencorajamento da malversação, ao mesmo tempo em que não faz predições de ordem universal, assumindo que os detalhes de cada estrutura social serão determinantes para a análise de cada situação.

A primeira característica dessas redes é que a informação que interessa aos seus membros circula muito depressa e os efeitos da reputação se disseminam rapidamente entre eles, conduzindo a uma assimetria de informações entre os membros e os não membros da rede. A segunda é o reconhecimento pessoal existente entre os membros da rede: interagir com um dos membros pode equivaler a interagir com toda a rede.

Há a multiplicação de experiências econômicas associadas a princípios de autogestão, cooperação e solidariedade, é visível, no Brasil e em diversos países. Atrás desse fato, encontra-se a crise estrutural do mercado de trabalho, com os agravantes das políticas sociais recessivas, que impuseram processos de fragmentação e de exclusão social nas últimas décadas. No Brasil, contingentes cada vez maiores, alijados do mercado de trabalho e abandonados pelas políticas sociais em recuo, viram-se compelidos a criar suas próprias oportunidades de trabalho e sobrevivência. Ao mesmo tempo, o florescimento das práticas de solidarismo econômico deve-se à atuação mobilizadora de movimentos sociais, frações do sindicalismo e inúmeras entidades civis, à oferta e impulsão desses agentes mediadores, na direção de soluções coletivas, por sua vez respaldadas pelo efeito demonstrativo das primeiras iniciativas bem sucedidas (GAIGER, ET.AL., 1999; SINGER, 2002).

No Brasil, o fenômeno expressa-se no ideário e na prática de um número crescente de empreendimentos econômicos, levados a cabo por trabalhadores, premidos pela falta de alternativas de subsistência ou movidos pela força de suas convicções. Num verdadeiro polimorfismo, os empreendimentos organizam-se em associações informais ou grupos de produção comunitários, cooperativas e empresas de pequeno ou médio porte. Na linha de frente, perfilam-se hoje empresas industriais, cooperativas de produção e centenas de associações e cooperativas agropecuárias. Estudos convergem em constatar uma revitalização de experiências antigas, a exemplo das cooperativas de produção rural e de consumo, lado a lado com a expansão de novos segmentos e de uma plêiade de iniciativas locais, rurais e urbanas (GAIGER ET AL., 1999; SINGER, 2002).

Na esfera das cooperativas com cunho solidário, constata-se que a missão do agente econômico que concede o crédito é sair de uma interação puramente profissional para uma interação mais informal e “imersa” (embedded) na vida local. Essa proximidade afetiva e moral entre este agente e o candidato ao empréstimo tem duas funções: permitir ao credor compreender melhor as especificidades da atividade profissional de seu cliente e conseguir informações às quais não teria acesso numa relação puramente profissional, podendo, inclusive, obtê-las de maneira indireta, através das redes sociais.

Nota-se que, no caso das cooperativas de crédito, esses atributos estão construídos a priori, antes mesmo da existência dessas organizações financeiras, na maioria dos casos. O laço social construído de maneira durável entre a cooperativa de crédito e os associados será determinante no cumprimento da missão institucional. A identificação das redes sociais e dos entrelaçamentos de convergência de informações para essas redes constitui uma dimensão fundamental da atividade dos dirigentes da cooperativa. O desenvolvimento da cordialidade ou da intimidade nas relações interpessoais, a troca de informações baseada em recomendações e a participação na vida social da comunidade visam a inscrever as relações comerciais num contexto estratégico de trocas sociais (Junqueira; Abramovay, 2003, pág. 12).

Para Pereira (2008), o processo de cooperativismo no Brasil se restringia às causas do proletariado convertendo-se depois em um forte aliado do processo de redemocratização quando expressa que:

No Brasil, apesar de sua origem estar vinculada às lutas operárias do início do século XX, até os anos 70 a existência de cooperativas esteve restrita a certos setores da economia, especialmente ao mundo rural. Muitas vezes, estas cooperativas de produtores rurais não se constituíam em cooperativas autogestionárias, mas se utilizavam da forma jurídica de cooperativas para encobrir relações de subordinação ou no máximo promoviam uma cooperação tangencial no processo de produção e sem nenhum exercício democrático da gestão da cooperativa.

Foi a partir dos anos 80 do século XX que, em conjunto com o processo de redemocratização do Brasil, diversos setores da sociedade começaram a propor que a democracia não deveria ficar restrita ao mundo político institucional, mas necessitava se expandir em outras esferas da vida, particularmente no mundo do trabalho. É daí que passa a surgir todo um movimento na sociedade brasileira, no qual trabalhadores de diversos ramos de atividade iniciam a formação de cooperativas, movimentos sociais passam a fomentar práticas de autogestão, universidades e outras entidades passam a apoiar a formação de cooperativas (Pereira, 2008, pág.3).

Como frutos desta “descoberta”, ressurgem diversas formas de organizações cooperativas em diferentes setores de organização econômica, envolvendo diversos sujeitos sociais. Todo este movimento adquiriu o nome de economia solidária. Como observa Singer (2000), uma das principais lideranças e teórico deste movimento, a economia solidária pode ser definida como toda forma de organizar a produção, a circulação e o crédito, não pelos princípios capitalistas da competição, do individualismo, da hierarquia e da heterogestão, mas sim pelos princípios da solidariedade, da ajuda mútua, da democracia e da autogestão, enfim, princípios eminentemente socialistas (SINGER, 2000 apud PEREIRA, 2008).

A Economia Solidária E As Redes De Parcerias

Uma das mais características formas de expressão do autêntico cooperativismo é a economia solidária. Pode-se defini-la como a ação capaz de gerar novas oportunidades de inserção social por meio do trabalho, desde que revestida de alguns valores que a legitimem: democratização da gestão do trabalho, ajuda mútua, responsabilidade, equidade e solidariedade, domínio do “know-how” produtivo, distribuição eqüitativa da renda obtida e fortalecimento do desenvolvimento local de forma auto-sustentável. Baseia-se na auto-gestão dos empreendimentos, permeada pelos valores éticos da honestidade, transparência e responsabilidade social (CALDEIRA, 2006).

Arruda (2004) reitera o pensamento do autor ao dizer que o desenvolvimento das cooperativas está atrelado ao desenvolvimento da própria economia solidária, quando expôs no IV Fórum Social Mundial:

Empresas e cooperativas solidárias, sob a atual hegemonia do neoliberalismo, desenvolvem uma estratégia em três frentes: (1) competem no mercado capitalista, procurando ao mesmo tempo superar o modo patriarcal de relação, baseado no poder como competição, dominação e submissão; (2) desenvolvem redes, cadeias produtivas e mercados de colaboração solidária nos quais a cooperação e a solidariedade possam ser sempre mais plenamente praticadas, e (3) participam das redes nacionais e globais que lutam por regulações e controles sobre o capital, e por políticas públicas e direitos democráticos favoráveis à maioria trabalhadora (ARRUDA, 2004).

O surgimento da economia solidária no Brasil parece ser réplica à grande crise do início da década de 80, quando empresas de variado porte vão a concordata e a falência. Formam-se, então, algumas cooperativas importantes como a indústria Wallig de fogões em Porto Alegre, a Cooperminas, (explora mina de carvão falida em Criciúma – Santa Catarina) e as cooperativas que operam as fábricas da antiga Tecelagem Parahyba de cobertores em Recife e em S.José dos Campos, todas operando até esta data, sob a égide da economia solidária.

A economia solidária agrega o conjunto das empresas que claramente se regem pelos princípios do cooperativismo, ou seja, a autogestão. A cooperativa de produção pode ser considerada a unidade básica da economia solidária. Outros exemplos expressivos de cooperativas autogestionárias são as de comercialização, de consumo e de crédito (CALDEIRA, 2007)

Constata-se, pois, a existência de cenário capaz de gerar ou incrementar diversos fatores de empobrecimento da população de baixa renda e, mais recentemente, da chamada classe média. Entre os primeiros, conta-se a dificuldade em garantir-lhe condições mínimas de sobrevivência digna, buscando-se, dentre inúmeras possibilidades, a que pudesse responder à questão, com aproveitamento de mecanismos produtivos e econômicos usuais, com opção para o Cooperativismo, que é uma forma de economia solidária (CALDEIRA, 2006).

Neste clima adverso, vemos emergir diversas formas de Economia Popular como uma alternativa ao desemprego e à exclusão, voltada para a mera subsistência através de um emprego e alguma renda. Mas vemos também emergirem diversas formas de Economia Solidária como uma nova proposta de organizar a economia e a sociedade em torno da convicção de que Outra Socioeconomia Global é possível, outro Ser Humano é possível (ARRUDA, 2004).

Examinemos mais atentamente a visão de uma Economia Solidária. Para alguns ela é apenas um meio para compensar o desemprego e a exclusão gerados pela economia centrada no lucro. Para um número crescente de ativistas, de pensadores e de políticos, porém, ela é também a base para uma nova forma de organização da vida econômica, da escala local à global: é a atividade econômica organizada para servir ao seu objetivo maior, que é o auto-desenvolvimento pessoal e coletivo seguro e sustentável. Isto implica a partilha da satisfação das necessidades e desejos e a co-gestão das casas em que o povo habita em comum – o lar, o bairro, o município, o ecossistema, o país, o planeta. A Economia Solidária, em suma, é uma forma ética, recíproca e cooperativa de consumir, produzir, intercambiar, financiar, comunicar, educar, desenvolver-se que promove um novo modo de pensar e de viver. Busca configurar-se da seguinte maneira, Arruda (2004):

• A sociedade civil, especialmente o mundo do trabalho, se empoderam para ser os sujeitos da sua vida e do seu próprio desenvolvimento. O Estado, o capital, o desenvolvimento econômico e tecnológico são concebidos como meios para viabilizar o desenvolvimento humano e social.

• A colaboração solidária é a forma predominante de relação social.

• A partilha e a co-participação na produção, distribuição e consumo são a emoção e a matriz da ação.

• O Estado democrático é um projeto comum, cujo papel é de promover um sistema de convivialidade baseado na cooperação, respeito mútuo e pleno desenvolvimento de cada uma e de todas as cidadãs, cidadãos e comunidades.

• A democracia é realizada como uma construção de um sistema humano e social, um espaço socioeconômico, mental e psíquico de partilha, de respeito mútuo, de cooperação e de co-participação.

• A matriz cultural é que cada um e todos que trabalham – o indivíduo social – são os legítimos líderes e, portanto, compartilham o poder e a responsabilidade pela tomada das decisões. Numa palavra, é uma cultura do individualismo social ou do personalismo coletivo, ou do socialismo individual.

Para Arruda (2000), o cooperativismo autogestionário é a afirmação de que o ser humano pode se tornar sujeito da sua própria economia pode deixar de ser objeto e marionete de outros e das suas próprias criações – o capital, as riquezas, o dinheiro, as máquinas, a tecnologia. Ele mostra que pode haver uma cultura diferente e superior à cultura da ganância, da usura e da avareza. Ele também mostra que o capitalista é uma figura descartável. Da cultura da competição emerge uma ética terrível: é bom tudo aquilo que ME ajuda a ter, possuir, controlar outros e acumular riquezas; é mau tudo aquilo que ME impede de fazer isto (o ME em maiúsculas tem a ver com o culto do indivíduo tomado como um absoluto e isolado dos seus contextos social e histórico, a pessoa vista como um “eu-sem-nós”).

Já a cultura da cooperação e da solidariedade tem uma ética construtiva: é bom tudo aquilo que NÓS ajuda a compartilhar os meios de sobrevivência e as riquezas. Tudo que eu fizer em favor da promoção dos outros é bom para eles e traz benefícios também para mim (o NÓS em maiúsculas tem a ver com o conceito do indivíduo interligado (solidário com) outros indivíduos e inserido nos seus contextos social e histórico, portanto, o indivíduo-relação, “eu-e-nós” ao mesmo tempo) (ARRUDA, 2000).

Existe uma figura que fomenta a interação entre todas estas ideologias, possibilitando uma visualização tangível do que pretendo consecutir com a proposição deste trabalho. Nela, vemos a relação de que esta nova concepção de economia está incutida em valores que permeiam a igualdade, sustentabilidade e a ética. Sendo assim, há a estreita relação entre os ideais cooperativistas, a responsabilidade social e a democracia econômica, pois de maneira similar eles buscam a justiça social e o bem comum, em plena integração com os recursos naturais criando valor público.

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Formação de Redes no Modelo da “Democracia Econômica”

Referências:

ABRAMOVAY, Ricardo; JUNQUEIRA, Rodrigo Gravina. A sustentabilidade das microfinanças solidárias. Sober, 2003. Disponível em: <http://www.tau.org.ar/upload/89f0c2b656ca02ff45ef61a4f2e5bf24/54_1.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2008.

ARRUDA, Marcos. Economia solidária e o renascimento de uma sociedade humana matrística. Disponível em: <https://infotek.awele.net/d/f/1794/1794_POR.pdf?public=ENG&t=.pdf>. Acesso em: 22 mai. 2008.

CALDEIRA, Álvaro da C. Cooperativismo e Economia Solidária. Disponível em:

<http://www2.oabsp.org.br/asp/comissoes/resp_social/artigos/COOPERATIVISMO_ECONOMIA_SOLIDARIA.pdf> Acesso em: 03 abr. 2008

PEREIRA, Maria Cecília. Economia solidária: um novo modelo de produção face à crise do trabalho? Disponível em: <www.cori.unicamp.br/jornadas/completos/UNICAMP/artigo-cecilia>. Acesso em: 26 abr. 2008.

SINGER, P. A recente ressurreição da economia solidária no Brasil – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 2002.

SINGER, Paul. O capitalismo: sua evolução, sua lógica e sua dinâmica. São Paulo: Moderna, 2002.

*Giórgio de Jesus da Paixão é graduado do curso de Administração Pública da UDESC/ESAG. Atualmente é colaborador do SENAI.

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