Copenhague e o mercado
Fonte: Revista Sustentabilidade
Por Antonio Lombardi
Os efeitos negativos da cúpula da Dinamarca começam a ser sentidos e demonstrados pelo mercado.
Cerca de um mês após o término da rocambolesca reunião de Copenhague o mercado de negócios e serviços sustentáveis começa a sentir os primeiros efeitos negativos daquilo que todos sabem ter sido um retumbante fracasso político. Aliás, isso é perturbador: o fracasso não foi técnico, mas simplesmente político. Projetos de MDL (mecanismo de desenvolvimento limpo) primeiro e uma série de outros negócios na seqüência, todos estão parando à espera de uma definição clara do cenário político que tem por corolário a Convenção do Clima. Mas o que, afinal de contas, está acontecendo no mercado e por quê.
Todo o mercado de créditos de carbono que, no Brasil, decorre dos projetos de MDL depende da continuação do Protocolo de Quioto (PQ) ou de algo que o substitua e que mantenha os mecanismos de mercado estabelecidos a partir do PQ. Caso isso não aconteça, não tem mercado. Essa é uma regrinha mercadológica bem simples e se aplica a tudo. Serve para quaisquer coisas que estejam disponíveis para serem negociadas, de DVDs piratas nos camelôs da Avenida Paulista à cadeiras de turista em vôos espaciais: tudo isso só está a venda porque alguém está disposto a pagar. No caso do carbono não é diferente. Só que tem um viés que o torna mais sensível aos ânimos dos políticos: decorre de um estímulo legal.
Ninguém compra créditos de carbono simplesmente porque acha bonito. Esse mercado existe devido ao estímulo inoculado pela Convenção do Clima. A partir disso, uma série de outros negócios surgiu. Um bom exemplo são os projetos de energias alternativas e renováveis, especialmente em países do Anexo 1 do PQ. Tais projetos geram energia limpa e renovável, geram créditos de carbono e colaboram para a redução de emissões dos países em que estão situados. Agora, com uma lei federal de mudanças climáticas até mesmo o Brasil passa a se beneficiar mais diretamente de um projeto desses. Considerando que nada disso surgiu porque alguém está morrendo de medo do carvão acabar, quando a COP 15 fracassa o que sobra é uma enorme incerteza no mercado.
Por conseguinte, os primeiros a tirarem os pés do acelerador são os bancos. Sensíveis ao risco dos seus clientes, veem a inexistência de um acordo vindo de Copenhague como inibidor de futuros financiamentos, tendo em vista que nada vai acontecer além de 2012. Na sequência, os investidores tiram o time de campo e por fim todos os belos projetos de bases sustentáveis, como os do nosso exemplo acima (energia), vão para a gaveta até segunda ordem. Todas as pessoas direta e indiretamente envolvidas nessas atividades, de repente, precisam procurar outra coisa a fazer. Até a COP 16, em Cancún, nada muito diferente disso deve acontecer. Trata-se de mais um efeito negativo de Copenhague, arremessar o mercado no limbo por pelo menos um ano. Isso, sim, conseguiu-se de efetivo por lá.
Todavia, não se pode ainda calcular quantos milhões (ou bilhões?) isso acarretará em prejuízos mundo afora. Sim, muita gente investiu grandes somas em projetos que devem gerar créditos além de 2012. O próprio Banco Mundial, para estimular o mercado, comprou créditos com entrega para até 2014. A ideia deles foi muito boa, é preciso admitir. Mas, ao que tudo indica, os políticos não concordam com isso.
No entanto, não se pode fechar os olhos ao fato de que um mercado independente da Convenção do Clima já nasceu e deve frutificar. Especialmente se considerarmos iniciativas locais, como a da União Europeia, que reverberam mundo afora. Para citá-los como exemplo, há uma diretiva da Comissão Europeia que determina que todas as companhias aéreas que voem no espaço aéreo comunitário deverão, a partir de 2012, compensar suas emissões de gases do efeito estufa. Ou seja, empresas brasileiras que desejarem voar na Europa deverão tomar medidas compensatórias. Podem comprar créditos no mercado e/ou adotar medidas outras. Meu ponto é que haverá, ainda assim, algum negócio acontecendo. Contudo, o volume desses negócios poderia chegar a muitos milhões caso houvesse amparo político para tanto.
Noutras palavras, caso os políticos houvessem chegado a um acordo em dezembro último, nada disso estaria acontecendo. Para piorar, todos devem lembrar-se que o mercado é uma dama difícil de cortejar. Convencê-lo de que algo é bom, viável e suficientemente seguro é muito difícil. Quando essa confiança é perdida, recuperá-la pode ser pelo menos muito difícil.
Penso que a iniciativa privada, diretamente interessada no assunto (tecnologias limpas, novas tecnologias etc.) deva unir-se num movimento paralelo e separado do movimento político da Convenção do Clima e forjar no mercado a certeza de que se está falando de algo muito maior e definitivo do que as colisões de egos e interesses subrreptícios.
Só pra constar
Foi publicado hoje um relatório do Serviço de Monitoramento Mundial de Geleiras. Trata-se de um centro de pesquisas científicas que acompanha o estado dos glaciares ao redor do mundo, especialmente no que se refere ao aquecimento global, decorrente das mudanças climáticas. Este relatório aponta como inequívoco o fato de que todos os glaciares continentais devem desaparecer da face da Terra até meados deste século. Tudo bem, não é 2035; deve ser mais ou manos lá por 2050. Mas, independente da data, vão desaparecer, conforme o IPCC já havia noticiado em seu relatório de 2007.
Agora, devo confessar, estou me roendo de curiosidade para saber o que é que o ministro (desocupado) do meio ambiente da Índia tem a dizer a respeito. Ganesha, olhai por nós!
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