Desigualdade e pobreza devem ser temas da agenda doméstica: estudo inédito da Universidade de São Paulo teve apoio da Fecomercio

Fonte: Fecomercio

As elites latino-americanas apontam que a desigualdade e a pobreza devem ser os temas centrais da agenda doméstica e que os governos devem adotar medidas para resolvê-los. No entanto, existem algumas posições divergentes que refletem as polarizações e disputas no plano doméstico. Estas são as principais conclusões do estudo inédito “As visões das elites latino-americanas sobre a democracia e desigualdade”, desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (Nupri), da Universidade de São Paulo, e que teve o apoio da Fecomercio e financiamento da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo).

“O trabalho buscou compreender o quadro das transformações políticas, sociais e econômicas que tem ocorrido na América Latina e revela a visão das elites sobre o funcionamento das instituições políticas e o papel do governo. Além disso, aponta os fatores que criam obstáculos à consolidação da democracia, traz uma avaliação sobre as políticas voltadas para a superação das desigualdades e pobreza, como também a avaliação da integração regional e das relações externas na promoção do desenvolvimento entre os países”, explica Denilde Holzhacker, uma das pesquisadoras responsáveis pela pesquisa.

Foram ouvidos 829 integrantes das elites governamentais, partidárias, empresariais, sindicais, intelectuais e ligadas aos movimentos sociais na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Venezuela e México. No Brasil, a pesquisa foi coordenada pelos Professores Doutores Rafael Villa, Elizabeth Balbachevsky, José Augusto Guilhon Albuquerque, Denilde Holzhacker e Sérgio Gil. Também teve a participação professores e especialistas nos demais países.

De maneira geral, a pesquisa destaca que as elites mostram grande apreço aos valores democráticos, mas divergem quanto ao papel da democracia participativa e formal. No caso das elites brasileiras e chilenas, por exemplo, elas convergem suas atitudes e opiniões quanto à baixa prioridade à integração regional e ao desenvolvimento econômico. Quando analisadas sobre o papel do Estado na Economia, as elites brasileiras e mexicanas disseram ter visões intermediárias sobre o tema, apoiando em algumas situações e em outras, não.

Já as elites venezuelanas e bolivianas mostram maiores polarizações e percepções divergentes entre os diferentes setores, principalmente no que se refere à avaliação dos governos Hugo Chavez e Evo Morales. A análise mostra também que as elites venezuelanas são mais estatísticas e nacionalizantes, sendo que as elites chilenas mostram-se mais liberalizantes e pouco favoráveis a atuação do Estado.

“A percepção das elites sobre a questão democrática na América Latina é da maior importância para o empresariado brasileiro já que, além de refletir conceitos e preconceitos deste próprio empresariado, serve para informar decisões que envolvem nosso entorno geopolítico. Afinal, a América Latina é destino de nossas exportações de maior valor agregado, assim como palco de nossos principais investimentos diretos no exterior”, afirma o economista Mário Marconini, presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio.

Na visão de Marconini, a pesquisa demonstra resultados interessantes, inesperados e aparentemente contraditórios: sindicatos que não consideram o socialismo como o melhor regime político; setores industriais que são a favor do investimento direto estrangeiro; e elites que assumem sua parte da culpa pelo fracasso social dos países da América Latina. “Os números demonstram que estamos vivendo grandes transformações no nível de conscientização sobre o problema social e democrático no continente e na forma como a sociedade civil vê o mundo, sua região e seu país. Tais transformações parecem revelar sínteses inovadoras e alvissareiras, particularmente no caso do Brasil”, alerta.Para Marconini, o fato de as elites majoritariamente considerarem a democracia uma condição necessária, mas insuficiente para uma inclusão social efetiva, demonstra que os países já estão questionando a qualidade da democracia do que simplesmente aceitá-la. “No Brasil e na América Latina, parecemos dizer que a democracia é o melhor dos regimes, porém falta muito para aprimorá-la. Creio que o maior problema está na distância entre as críticas e a efetiva participação das elites na construção de democracias mais responsáveis no continente”, ressalta o presidente do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio.

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