Ética e sustentabilidade empresarial em tempo de crise
Leticia Freire, do Mercado Ético
Você considera normal o pagamento de propina? Sua empresa tem um código de ética que não se expressa em suas práticas? Se a resposta é sim, sinta-se envergonhado, mas não se sinta só.
Conviver com a crise tem feito muitas pessoas enfrentarem pelo menos um dilema: como identificar soluções e manter sólidos os pilares éticos que o mundo requer hoje? A professora Laura Nash, da Harvard Business School, falou a respeito, na palestra Ética e sustentabilidade empresarial em tempos de crise, organizado pelo Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) da PUC-SP, no início de abril.
Uma leitura indígena da crise
Sem dúvida algo está fora da ordem. Mas a raiz da crise e a solução podem estar no mesmo lugar. Para ilustrar essa ambigüidade, Laura Nash lembra uma história que os índios Cherokees poderiam contar aos capitalistas, gestores e cidadãos. É uma antiga lenda que fala da batalha que acontece dentro de cada um. Ela é travada por um único lobo. Metade desse ser é genuinamente bom; a outra metade, nem tanto.
Difícil de entender? Basta observar o mundo que vivemos atualmente. “Vivemos num mundo rachado por uma crise econômica sem precedentes”, diz Laura Nash, da Harvard Business School. “Uma crise relacionada a escândalos, dinheiro e poder versus pobreza e infelicidade: estamos vivendo o melhor do pior”, afirma a professora.
De fato, números e estatísticas comprovam o crescimento econômico mundial. Mas os dados também apontam o reflexo negativo desse crescimento: injustiça social e degradação ambiental.
Então, se o “melhor do pior” habita o mesmo ser ou sistema, quem vence a batalha? Segundo os índios Cherokees, depende de qual lobo você alimenta.
A pausa
É evidente a atual situação mundial nos permite avaliar também a nossa caminhada. Para Laura, esse é um momento decisivo de auto-análise. “É muito difícil olharmos para nós mesmos e dizer: ok, agora estou sendo um pouco ganancioso”. Mas a lógica do mercado empurra as pessoas à ganância, certo?
Errado!
Existe espaço para prosperar no mercado avaliando as melhores opções a todos. Entender que não há perdas, mas sim ganhos coletivos, é a maior barreira. “O mundo e as pessoas operam na lógica do interesse próprio, que é a ética da ganância”, conta Laura.
Alimento de mudança
O homem precisa mudar seus valores atuais se quiser transformar a realidade futura. Na opinião de Laura, será preciso muita conversa para restringir nossas expectativas consumistas a quanto é realmente suficiente para mim e para os outros. “Enquanto a mudança não vier de dentro, os códigos de ética e até mesmo o sistema global seguirão tão frágeis quanto hoje”, diz.
Para ela é preciso compartilhar oportunidades, recompensas e, porque não, sofrimentos. “Trata-se de democratizar as possibilidades, sem colocá-las em risco. Trata-se de sermos humanos e solidários. Deixamos marcas em nossa passagem, precisamos aprender a alimentar o que há de melhor refletindo sobre o que é suficiente”, conclui.
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