Pilhas usadas poderiam virar corretivo de solo, mas falta coleta seletiva

Fonte: Revista Sustentabilidade
Escrito por Fernanda Dalla Costa

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) comprovaram a viabilidade técnica e econômica para reaproveitar os metais de pilhas usadas, mas a obtenção da matéria em quantidade suficiente ainda é um entrave, disse em entrevista à Revista Sustentabilidade Marcelo Borges Mansur, professor do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais (DEMET).

“A tecnologia para tratar as pilhas usadas nós temos, o que não temos são grandes quantidades necessárias de matéria prima [pilhas usadas]“, informou Mansur. “Coletar o material é difícil, pois exige uma campanha de conscientização e [políticas] de recolhimento”

Segundo ele, a falta de coleta eficiente do material é resultado da legislação, que permite o descarte em aterros se tiverem níveis adequados de metais zinco, potássio e magnésio.

Além do grupo na UFMG, pesquisadores na Universidade Federal do Rio de Janeiro e no Centro de Tecnologia Minieral do Rio de Janeiro também vêm abordando o assunto.

Como a maioria da produção de pilhas no Brasil atende aos critérios legais, e existe pouca coleta das pilhas usadas, os pesquisadores se viram obrigados a basear seus estudos nas cerca de 2000 empresas brasileiras que têm certificação de qualidade ambiental ISO 14000, que obriga a descartar a pilhas corretamente, disse Mansur.

Um panorama parecido desde que Mansur e sua equipe começaram a estudar as possibilidades de reciclagem das pilhas há seis anos.

Segundo dados levantados por Mansur, hoje, 1 bilhão de pilhas são consumidas e descartadas por ano no Brasil. Destas, cerca de 40% são clandestinas, podendo conter mercúrio na sua composição. No entanto, as pesquisas se concentraram nas pilhas oficiais, ou seja, as que são registradas no Brasil e que não contém mercúrio.

Inicialmente, o grupo da UFMG levantou a hipótese de usar os componentes das pilhas para fabricar novas pilhas ou utiliza-los para outros fins.

No entanto, a primeira linha de pesquisa foi logo descartada, pois a fabricação de novas pilhas necessita de potássio, manganês e zinco com alto grau de pureza, o que torna o processo de recilcagem extremamente caro.

Mansur explicou que a segunda opção era reutilizar os minerais para finalidades que exijam pureza mais baixa, e assim o grupo optou pela produção de corretivos de solos.

O processo de reciclagem envolve a separação da carcaça metálica e a lavagem da pasta que contém os metais, durante a qual o potássio associa-se à água e é separado da pasta metálica, onde sobram o zinco e o manganês.

Na etapa seguinte, a pasta é colocada em ácido sulfúrico que reage com o zinco e manganês para formar sulfato de zinco e hidróxido de manganês, compostos comumente usados para melhorar solos na agricultura.

O custo do corretivo de solo produzido por esse meio teria um preço similar ao do mercado, uma vez que o gerador das pilhas também pagaria ao produtor do corretivo pelo descarte, disse Mansur.

Em geral, as pilhas são compostas de 20% de zinco, 30% de manganês e 7% de potássio.

“Não podemos esperar o aproveitamento de 100% dos materiais, pois há perdas em todos os processos produtivos”, explicou. “Eu diria que trabalhar com 80% destes valores é razoável”.

Assim, a cada 1 quilograma de pilhas recicladas, é possível recuperar 160g de zinco, 240g de manganês e 56g de potássio. Ao longo de um ano, se o mercado retornasse todas as pilhas consumidas para a reciclagem, existiria a possibilidade de ter disponível de 10 mil a 20 mil toneladas de material para produzir os metais.

No cálculo de Mansur, este volume representa a geração de 5 mil a 10 mil toneladas de ferro, uma a duas mil toneladas de zinco e entre 1,5 mil a 15 mil toneladas de manganês.

“Se fizer o calculo global, será maior ainda, mas como é um lixo muito distribuído [geograficamente], o impacto no espaço e no tempo não parece ser grande, mas seria um ganho ambiental considerável”, conclui Mansur.

CERCA DE 0,5%

Sem contar que este esforço pouparia a remoção destes metais da natureza.

No entanto, a realidade brasileira demonstra que cerca de 0,5% de todas as pilhas consumidas no país são encaminhadas à reciclagem. Atualmente, os maiores programas de coleta de pilha foram implementados por meio de projetos voluntários do Banco Real e da Drogaria São Paulo, que custeiam desde a coleta até a o processamento final em indústrias que fornecem pigmentos para o setor de tintas.

No período de dezembro de 2006, quando o programa do Banco Real foi instituído, até março de 2009, foram coletadas 178,8 toneladas de pilhas em todo o Brasil. O que poderia gerar mais de 28 toneladas de zinco, quase 43 toneladas de manganês e 10 toneladas de potássio, destinados à correção de solo.

As coletas realizadas pela Drogaria São Paulo, entre os anos 2004 a 2009 totalizaram 55,39 toneladas, o que resultaria na produção de 11 toneladas de zinco, 16,6 toneladas de manganês e 3,8 toneladas de potássio.

Estes programas, apesar desmonstrarem a falta de políticas públicas para remover os metais perigosos do meio ambiente e preservar recursos naturais,  também demonstram que há uma crescente preocupação da população com o problema.

Segundo dados da Drograria São Paulo, a coleta voluntária de pilhas usadas tem crescido a passos largos. Em 2004, foram coletadas 1,6, toneladas, em 2005 5,5 toneladas, em 2006 a coleta atingiu 10 toneladas para fechar 2007 com 15,1 toneladas e 2008 17,2 toneladas.

No início de 2009, a rede de farmácias já coletou 5,9 toneladas do resíduo.

COMBATE AO MERCÚRIO

Enquanto isso, em Belo Horizonte, o grupo de Mansur, motivado pelos resultados promissores da pesquisa, já estão preparando para solicitar a patente do processo.

Agora, os pesquisadores estão iniciando estudos com as pilhas ilegais, que contém altos índices de mercúrio na sua composição, usados para evitar a corrosão dos materiais.

A idéia é ver como separar o mercúrio por meio de um processo parecido, para permitir o uso em escala de pilhas sem necessidade de separá-las anteriormente.

“Ainda não sabemos como o mercúrio reagiria com os processos usados no método de reciclagem de pilhas oficiais”, revelou Mansur.

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Comentários

Gostei muito deste artigo. Me deu informações chaves para minha pesquisa sobre pilhas. Muito bom!

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