Produção e consumo: o custo da vida na balança

Leticia Freire, do Mercado Ético

“Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies.”

(Carta da Terra)

Trata-se de um fato contraditório. O consumo da humanidade ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração do Sistema Terra. Isso significa que, no atual cenário precisaremos de mais Planetas Terra – seis se adotarmos uma postura americana de produção e consumo ou quatro para os que gostam do jeito como o “velho continente” se manifesta diante do jogo. Mas não temos outra Terra, ou seja, tanto para um lado como para outro, o cenário não é positivo.

Então, como desacelerar o ritmo compulsivo desse “produz-compra-descarta” a que reduzimos nossas vidas? Com o objetivo de trazer luz à questão, o tema foi abordado no debate “Produção e Consumo Sustentáveis: Os desafios do Processo de Marrakesk”, que aconteceu na terça-feira (16/6), no segundo dia da Conferência Ethos 2009.

Alerta

De acordo com dados apresentados no terceiro relatório Global Environmental Outlook do PNUMA, o uso dos recursos naturais, os níveis de poluição e de resíduos continuam crescendo. A quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, por exemplo, em 2002 era 18% mais alta do que em 1960 e cerca de metade de cobertura florestal original do mundo também já não existia mais naquele ano, enquanto outros 30% encontravam-se degradados ou fragmentados.

Ainda de acordo com o relatório, se a humanidade não romper com o vínculo entre o crescimento econômico e a degradação do meio ambiente, as sociedades não conseguirão sustentar sua qualidade de vida. Ainda assim, consumimos desnecessariamente, compulsivamente, contra nós mesmos. Por que?

Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, acredita que o homem precisa mudar a relação que tem com seu próprio estilo de vida, estilo, segundo ele, “voltado a viver para consumir e não consumir para viver”.

Para Mattar, a reflexão pessoal e íntima sobre uma felicidade pautada em afeto, amores e arte é capaz de levar à substituição dos atuais padrões humanos, focados no perigoso ciclo de descarte e apropriação. “Falar em mudança de hábitos de consumo pode parecer um discurso utópico e romântico. Mas para aqueles que visualizam os riscos de subordinar a vida ao cenário de produção e consumo atual, trata-se da formulação urgente de nossos pressupostos desse sistema.”.

Com voz pausada e clara, Mattar propôs mais humanização, ação e cooperação entre as forças sociais interessadas na construção de outro modelo de consumo, focando, segundo o próprio, no bem estar mundial. “O processo de Marrakesh [mais informações no fim da reportagem] é extremamente valioso na construção de uma nova visão de mundo”, disse.

Mudança necessária

Como membros da cadeia de produção e consumo, até onde podemos ir? Não muito longe, foi o que sintetizou a fala de Arab Hoballah, dirigente do Setor de Consumo e Produção do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Para ele os atuais padrões mundiais, pautado num sistema de desenvolvimento meramente econômico, alimentam uma situação continua de crise e geram ainda mais degradação ambiental e humana. “Estamos buscando e gastando dinheiro para fins que não são necessários”, disse.

Ainda assim, o momento é de cooperação. “Temos o poder de destruir na mesma medida que para construir, é uma questão de escolha”, reforçou. Hoballah apontou a necessidade de focar os programas econômicos na qualidade de vida, mas ressaltou que o trabalho de construção desse novo paradigma deve acontecer conjuntamente com outros stakeholders. “Precisamos do engajamento por parte de empresas, governo e sociedade civil no desenho das prioridades locais e regionais no processo de Marrakesh”, disse. “Não se trata de uma solução que sirva a todos. É preciso ouvir e entender as diferenças geográficas, políticas e econômicas de cada um. Só assim o plano atingirá o resultado”, finalizou.

O Processo de Marrakesh

O Processo de Marrakesh teve início em 2003, como resposta ao Plano de Implementação de Johanesburgo (Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável/Rio+10, realizada em 2002). Tem por objetivo desenvolver programas que apoiem iniciativas regionais e nacionais para de Produção e Consumo ustentáveis (PCS). Clique aqui para saber mais.

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