Redução da fuligem ajuda no controle de temperaturas
Autor: Fabiano Ávila – Fonte: CarbonoBrasil
Pesquisadores sugerem o uso do Protocolo de Montreal para atacar outros agentes causadores do aquecimento global além do CO2, o que poderia retardar os piores cenários de mudanças climáticas em até duas décadas
Implantar tecnologias já disponíveis para reduzir as emissões de carbono negro (partículas de carbono amorfo produzidas pela combustão, chamadas simplesmente de fuligem) e controlar a produção e o consumo de hidrofluorcarbonos (HFCs) são medidas que podem ser adotadas rapidamente e tem o potencial de retardar as piores conseqüências do aquecimento global.
Esta é uma das conclusões do estudo “Reducing abrupt climate change risk using the Montreal Protocol and other regulatory actions to complement cuts in CO2 emissions”, publicado nesta semana no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
“Cortar HFCs, carbono negro, ozônio troposférico e metano pode nos dar cerca de 40 anos antes de ultrapassarmos a temida marca de mais de 2°C de aquecimento”, afirmou um dos autores do estudo, o professor da Universidade da Califórnia Veerabhadran Ramanathan.
O grande ponto positivo apontado pelo recém-publicado trabalho é que esses agentes já estão sob o controle de um acordo internacional, o Protocolo de Montreal, e que isso deve facilitar para que sejam regulados. Seria necessário apenas casar as propostas deste protocolo com o futuro tratado internacional climático, que tem em Copenhague uma chance de ser firmado.
“O Protocolo de Montreal já ajudou a frear as mudanças climáticas em até 12 anos, e foi fundamental para a recuperação da camada de ozônio, que deve estar completamente intacta até o fim do século. Nós temos que tirar vantagem desse mecanismo que já provou ser eficiente em reduzir os HFCs, por exemplo”, explicou um dos autores do estudo, o pesquisador Mario Molina, que recebeu o Prêmio Nobel de Química de 1995 por seus estudos revolucionários sobre a camada de Ozônio desde a década de 1970.
Apesar do Protocolo de Quioto tratar também dos HFCs, ele não regula nem a produção ou consumo desses químicos.
Agilidade
As pequenas nações insulares da Micronésia apresentaram em julho uma proposta, que recebeu apoio dos Estados Unidos, para a redução do uso e do consumo de HFCs, já que vêem nesse tipo de regulação uma maneira rápida e eficiente de controlar o aquecimento global.
“Nós devemos considerar todas as estratégias viáveis que possam ajudar nossos países que são tão vulneráveis às mudanças climáticas, ainda mais as que já se mostraram bem sucedidas, como o Protocolo de Montreal”, afirmou o embaixador da Micronésia junto a ONU, Masao Nakayama.
Outra ação de efeito rápido que o estudo sugere, e que vem sendo negligenciada pelos debates climáticos internacionais, é a redução do carbono negro. De acordo com o trabalho, a fuligem é responsável por 50% do aquecimento de 1,9˚C no Ártico desde 1890, assim como é um fator relevante no degelo do Himalaia.
Pesquisadores consideram o carbono negro um alvo ideal para se alcançar uma mitigação rápida, porque ele permanece na atmosfera apenas por poucas semanas e pode ser reduzida pela expansão do uso de filtros em veículos e a alteração no método de queima de alguns combustíveis, como lenha e carvão.
“Se reduzíssemos as emissões mundiais da fuligem em 50% colocando em prática todas as tecnologias que temos a disposição, poderíamos retardar o aquecimento global em uma ou duas décadas e ao mesmo tempo estaríamos melhorando muito a qualidade do ar que respiramos”, disse Ramanathan.
Apesar do mundo estar focado no CO2 nesses meses que antecedem Copenhague, os autores do estudo esperam que seja reconhecida as vantagens de se adotar essas estratégias de ação rápida complementares a redução deste gás.
“Essas ações irão dar apoio às propostas de longo prazo das soluções do CO2, e irão nos dar algum tempo antes que as piores conseqüências das mudanças climáticas tenham efeito”, concluiu Stephen Andersen, outro autor do estudo.
Imagem: Fuligem, muito presente em metrópoles, é emitida pela combustão em automóveis e indústrias, por exemplo.
Crédito: China.org
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