São Paulo é exemplo do impacto das mudanças climáticas, diz especilista
Fonte: Revista Sustentabilidade
“A cidade de São Paulo é o exemplo do que podemos esperar para o mundo na questão climática, pois já enfrenta grandes modificações que afetam o cotidiano das pessoas”, afirmou Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no evento Vulnerabilidade em área de risco: o que fazer? Conheça as análises de Nobre e outros estudiosos da área que concederam entrevista à Revista Sustentabilidade.
“O clima já mudou substancialmente em São Paulo”, disse Nobre. “A cidade já atravessa mudanças climáticas de grandes proporções e é um exemplo do que nos espera no futuro”.
Para o pesquisador, o Brasil tem feito um grande esforço para criar massa crítica sobre as alterações climáticas. Ele destaca o Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais que investiu R$100 milhões em estudos sobre o tema.
“Porém, não vamos conseguir prever o futuro. Os cenários são muito incertos e complexos e é impossível ter uma previsão do que acontecerá, só temos probabilidades”, garantiu.
Apesar desse esforço, Nobre afirma que o Brasil não está preparado para enfrentar as alterações climáticas e garante que a melhor maneira para reduzir esses impactos é por meio da diminuição das emissões, pois, os cientistas ainda não encontraram os limites para as adaptações às mudanças.
“Não sabemos quais são os limites da vida, até onde ela pode se adaptar”, comentou Nobre, que é engenheiro eletrônico doutorado em Meteorologia pelo MIT (Massachussets Institute of Technology).
Nobre afirma que as questões relacionadas ao clima estarão no centro dos debates científicos e políticos dos séculos XXI e XXII e não sairá mais de cena.
Para o pesquisador, a região metropolitana de São Paulo já sofre com o crescimento no número de noites quentes, diminuição do número de noites frias e com o aumento no volume das chuvas e dos períodos secos, características das mudanças climáticas.
GRANDES IMPACTOS
Esses eventos podem provocar grandes impactos não somente em São Paulo, mas em todo o Brasil, como por exemplo o aumento no número de pessoas vítimas de epidemias e a migração de espécies animais e vegetais para outras regiões.
Com a temperatura mais quente, o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, que não sobrevive em temperaturas inferiores a 22ºC, terá a possibilidade de colonizar uma área maior, podendo chegar até Montevidéu, capital do Uruguai. Atualmente, ele não ultrapassa o Paraná.
No Rio de Janeiro, um milhão de pessoas correm riscos de perder suas casas com o aumento do nível do mar.
Outra estimativa do pesquisador é que a Mata Atlântica sofrerá uma redução de 30% na sua área verde em um cenário de baixas emissões. Com os nossos níveis de emissões, a previsão para a redução da área da floresta é de 65%.
Nobre estima também que se o aquecimento continuar, em 2050 o café desaparecerá das encostas paulistas e só será viável se for cultivado em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Segundo o especialista em Meteorologia, as principais vítimas do aquecimento são as populações carentes, especialmente de grandes cidades, e os 14 milhões de habitantes do semi-árido nordestino que dependem de água da chuva.
Desde 1933, quando as medições começaram até os dias atuais, a temperatura de São Paulo subiu 2,5ºC. Nobre afirma que pelo menos 0,5ºC desse aquecimento foi causado por mudanças climáticas, porque também foi detectados em locais onde não há urbanização.
“Num dia seco de primavera, a diferença de temperatura entre a periferia e o centro de uma grande cidade como São Paulo pode chegar a 8°C”, disse.
CHUVAS MAIS INTENSAS
Dados comprovam que as chuvas estão ficando muito intensas e mais espaçadas. As chuvas fortes – nas quais houve precipitações acima de 30 milímetros dentro de um período de duas horas – aumentaram de 72 ocorrências na década de 1930 para 122 nos anos 2000.
“São Paulo é um paradigma do que podemos esperar para o nosso mundo”, disse Nobre, considerando a realidade paulistana de umidade relativa do ar mínima nas horas mais quentes do dia e o aumento exponencial no número de descargas elétricas.
“Chuvas maiores de 50 milímetros serão 30% mais freqüentes até 2050 e 50%, até 2100″.
VULNERABILIDADE
Outra constatação dos pesquisadores brasileiros é a de que os meses mais quentes do ano deixaram de ser janeiro e fevereiro e passaram a ser outubro e novembro, períodos secos em que a química dos poluentes torna a população mais vulnerável.
“Episódios quentes na primavera pioram os efeitos dos poluentes, aumentando a vulnerabilidade da população a eles”, afirmou o pesquisador.
A vulnerabilidade de áreas consideradas de risco é influenciada pela exposição aos perigos naturais, que aumentam com as mudanças no clima e com a exposição a eles, que crescem com a pobreza e a urbanização desordenada.
Ela também varia de acordo com o ambiente e com a intensidade dos eventos. Segundo Marcelo Fischer Gramani, geólogo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a enchente de Itajaí/SC, em novembro de 2008 – quando o rio Itajai-Açu subiu 11 metros – foi menos perigosa que a cheia do rio Paraitinga, em São Luís de Paraitinga/SP, ocorrida no início de 2010.
“A cheia do Iatajai-Açu foi mais lenta, causou menos prejuízos que a do Paraitinga, que foi muito mais rápida”, afirmou o geólogo que participou das vistorias das áreas mais impactadas pelos dois eventos.
POLÍTICAS DE ADAPTAÇÃO
“É muito difícil mitigar toda as mudanças que as cidades já passaram”, afirmou Nobre. “Politicas públicas que abordem a adaptação serão fundamentais daqui para frente”.
Para Mário Thadeu de Leme Barros, professor de engenharia da Poli/USP, os planos diretores têm uma visão de previsão e não de planejamento e esbarram nas ocupações ilegais e nos limites administrativos das cidades, que inviabilizam o sucesso das ações.
“Os rios não conhecem os limites administrativos que o homem criou”, afirmou, “Por isso, existem muitas dificuldades no planejamento e na implementação de uma gestão eficiente da drenagem urbana. Uma gestão intermunicipal e uma ação estadual para regular essa gestão são fundamentais”, declarou.
Com um crescimento de cerca de 1% – 200 mil novos habitantes – ao ano, a maior região metropolitana da América Latina não escapa da urbanização desordenada, que aumenta a temperatura, as inundações, a erosão, o assoreamento, a poluição das águas por esgoto e diminuem a recarga do aquífero, a disponibilidade de água e altera o regime de chuvas.
Neste sentido, a prefeitura de São Paulo e o governo do estado têm realizado algumas ações, como a Operação Defesa das Águas, que começou em 2007 nas represas Guarapiranga e Billings e já chegou à Cantareira e à várzea do Tietê na zona leste.
A operação prevê ações de habitação, a criação de parques lineares e ações de reurbanização, que estão sendo executadas, segundo o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), Eduardo Jorge.
“Esta é a operação intersetorial mais complexa e completa que existe entre o estado e a prefeitura”.
De acordo com a SVMA, nos últimos quatro anos, a operação realizou 4 mil desfazimentos em áreas de várzea paulistanas, que consistem em desmontar edificações antes de serem ocupadas. Geralmente, essas edificações são frutos de invasões.
“Até então, em 30 anos, apenas 3 mil desfazimentos haviam ocorrido na cidade”, afirmou o secretário.
Outro programa municipal destinado à adaptação às mudanças no regime das chuvas prevê a criação de 100 parques lineares na cidade até 2012, para liberar áreas de várzea ocupadas por avenidas, bairros e favelas.
“Não podemos mudar 50 anos em cinco, mas temos ações locais que dão resultado”, disse Jorge.
Segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, até agora, R$330 milhões foram investidos nos 21 mil metros quadrados já trabalhados pelo programa em 20 parques, incluindo os custos de implantação, manutenção e desapropriações de áreas.
Segundo a prefeitura, o Parque Várzeas do Tietê custará R$1,7 bilhões ao estado e pretende levar habitação segura a população, além de combatar às enchentes e contar com um programa de inclusão com 33 núcleos de lazer.
Este é o maior parque previsto no programa. Segundo informações da prefeitura, quando concluído, a obra será a maior do gênero no mundo, com 75 km de extensão, 107 km² de área e atenderá as cidades de São Paulo, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Poá, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis.
“Essa é a obra mais importante do governo estadual, porque ela é intersetorial”, na visão de Jorge.
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