Fonte: Revista Sustentabilidade
Escrito por Luis Paulo Roque

As transformações que vêm ocorrendo no mundo em decorrência das mudanças climáticas geram novas oportunidades para o setor de seguros contra catástrofes, e serão, a partir de agora, negociadas no Brasil, segundo foi discutido em um dos workshops do Evento Sustentável 2009, que aconteceu em São Paulo.

“Seguro contra catástrofes no Brasil é algo inédito. Não temos histórico de catástrofes”, afirmou Cláudio Contador, professor da Escola Nacional de Seguros, lembrando que, por esta modalidade ainda ser nova no país, é difícil fazer uma análise dos riscos que este tipo de seguro pode envolver.

A decisão das seguradoras em começar a oferecer este tipo de apólice surgiu nos últimos anos, mais especificamente, após o acorrido em março de 2004, no sul do Estado de Santa Catarina e no nordeste do Estado do Rio Grande do Sul, quando ambos os estados foram afetados pelo furacão Catarina.

“Catástrofes naturais começaram a acontecer no Brasil”, disse o meteorologista, Carlos Magno, da agência de informações sobre previsão do tempo, Climatempo. “Ninguém imaginava que este seria o primeiro furacão historicamente registrado no Atlântico Sul. Difícil imaginar que não esteja vinculado ao efeito das mudanças climáticas”

Entre outros acontecimentos, destacam-se as quedas na ocorrência de chuvas no Centro-Oeste do Brasil, que segundo Magno, tem relação direta com o desmatamento que vem ocorrendo nas últimas três décadas no Cerrado e no sul da Floresta Amazônica, áreas que estão tendo sua paisagem transformadas pelo avanço das culturas agrícolas.

“O Cerrado é responsável por 50% da umidade que dá origem as chuvas” concluiu Magno. “O nível de umidade da corrente de ar que vem da região Norte para a região Sul está cada vez menor”.

Sunny Sehgal, CEO de Seguros Sustentáveis do HSBC Internacional, disse que a América Latina é uma das regiões do mundo que mais estão envolvidas com a questão da adaptação às mudanças do clima.

Ele destacou ações que vêm sendo desenvolvidas para diminuir as emissões dos gases causadores do efeito estufa e que, ao mesmo  tempo, vêm contribuindo para o surgimento de novas empresas, chamadas de New Climate Industry (Nova Indústria do Clima), criadas para acompanhar as adaptações necessárias ao combate dos problemas ambientais.

“Em 2009, estas empresas vêm movimentando algo em torno de US$470 bilhões [R$858 bilhões], em ações fiscais, transporte, infraestruturas verdes, conservação de água e energia, entre outras”, disse o executivo.

Sehgal destacou que, estas empresas veem estrategicamente as mudanças climáticas globais e consideram necessárias as adaptações, a fim de amenizar os danos decorrentes das mudanças climáticas, que deverão alcançar o montante de US$120 bilhões anuais, no período que vai de 2012 a 2020.

Setores, como os da saúde, produção de alimentos, por exemplo, estão na lista dos que serão afetados pelo aumento da temperatura global.

“Secas ocorrerão, furacões ficaram mais intensos, doenças se espalharão como pragas”, profetizou Sehgal.

Para Eduardo Mendiondo, coordenador do curso de Engenharia Ambiental da USP-São Carlos, os diversos tipos de mudanças que venham a ocorrer afetarão diferentes camadas da sociedade e, portanto, serão necessárias políticas públicas para resguardar o interesse e segurança da população.

Em suas pesquisas, Mendiondo mostrou que diferentes políticas públicas podem influenciar positivamente ou negativamente os efeitos decorrentes das mudanças climáticas.

“As políticas públicas hoje vão definir os cenários de amanhã”, salientou Mendiondo. “As tomadas de decisão hoje influenciarão o Produto Interno Bruto (PIB), o grau de concentração de renda e os riscos de catástrofes”, e resume, “As políticas implementadas hoje podem ajudar a determinar o grau das inundações e o número de epidemias no futuro.”